Cistite intersticial ou síndrome da bexiga dolorosa – O que é e como é feito o diagnóstico?

Muitos pacientes chegam ao consultório com o diagnóstico de síndrome da bexiga dolorosa ou cistite intersticial. Após terem passado por diversos médicos e terem investigado outras causas de dor pélvica, infecção urinária ou doença inflamatória pélvica. 

A cistite intersticial é uma condição de dor crônica na bexiga ou desconforto pélvico que provoca grande impacto na qualidade de vida. Estima-se que cerca de 3-7% das mulheres sofram com sintomas da cistite crônica principalmente a partir da quarta década de vida. As mulheres são mais frequentemente acometidas do que os homens (cerca de 5 a 10 vezes mais).

A maior dificuldade no diagnóstico acontece pois não está claro qual o mecanismo que causa a doença. Os sintomas podem ser vagos e de difícil controle. A própria literatura de saúde tem dados conflitantes sobre tratamento e abordagem em geral tem que ser multidisciplinar. 
Quais são os sintomas mais comuns da cistite intersticial?Grande parte das pacientes vai ao consultório com queixa de desconforto na região pélvica especialmente ao enchimento da bexiga. É recorrente o relato de alívio após o esvaziamento da bexiga. Em geral, a suspeita de cistite intersticial acontece quando a paciente já passou por avaliação de outras causas e apresenta dor persistente mesmo após semanas ou meses de tratamento.

“As pacientes podem se queixar de dor, mas também podem referir sensação de pressão, espasmos ou desconforto. É muito variável pois a percepção da dor varia de pessoa para pessoa” diz o urologista Dr Carlos Watanabe. 

Muitas vezes os sintomas tem uma piora progressiva ao longo do tempo. Apesar de raro, algumas pacientes conseguem relacionar eventos gatilho, como cirurgias, trauma ou parto. 

No exame físico, é possível identificar pontos gatilho na musculatura do assoalho pélvico e aumento da sensibilidade ao exame retal ou exame do aparelho genital.
O que fala contra o diagnóstico de cistite intersticial?Sangramento urinário ou vaginal, incontinência urinária, dor não relacionada ao enchimento ou esvaziamento vesicaldevem ser motivo de re-avaliação e procura de outras causas. Atribuir o diagnóstico de síndrome da bexiga dolorosa ou cistite intersticial sem uma investigação minuciosa por outras causas pode deixar passar diagnósticos importantes como de tumores do trato urinário, genital e gastrointestinal. 

Doença inflamatória pélvica por agentes infecciosos como clamídia e gonorreia, tumores da bexiga e do útero, prolapso genital, endometriose,  hiperplasia prostática (no caso dos homens) são alguns diagnósticos que devem ser descartados. 

O exame físico e a avaliação da história clínica além do uso de exames de imagem e laboratoriais é fundamental. 
Alimentos e atividade física podem piorar os sintomas da cistite intersticial?Assim como em outras situações que provocam aumento da sensibilidade vesical, como endometriose na mulher e hiperplasia prostática no homem, alguns alimentos e bebidas podem agravar os sintomas irritativos da bexiga. Entre eles os alimentos que contém xantinas e cafeína como café, chá preto, chocolate. Alguns pacientes podem referir que a atividade física ou mesmo atividade sexual podem estar relacionadas a piora dos sintomas.

Entretanto, a avaliação nutricional e a orientação correta para atividade física e fisioterapia do assoalho pélvico podem ser ferramentas importantes na melhora dos sintomas e qualidade de vida do paciente. 
Qual a causa da cistite intersticial?Alguns fatores podem ser relacionados ao surgimento da cistite intersticial:

  • Perda da camada de glicosaminoglicanos (GAG) da bexiga
  • Estímulo crônico de receptores de dor e inflamação crônica da musculatura
  • Migração de mastócitos que perpetuam o processo inflamatório
  • Estimulação de recepctores dos neurônios responsáveis pela sensação de enchimento vesical e dor

Acredita-se que a cistite intersticial esteja relacionada a processo inflamatório crônico com perda da integridade da camada de proteção de glicosaminoglicanos (GAG) do revestimento urotelial da bexiga. Ou seja, há uma perda dessa camada de GAG o que facilita a penetração de substâncias irritativas da bexiga que podem provocar dano nos tecidos profundos, estimulação crônica de receptores de dor e aumento da sensibilidade da bexiga. 

Esse estímulo inflamatório causaria a migração de mastócitos, células do sistema de defesa, perpetuando o dano inflamatório local. A ativação persistente dos receptores de dor e enchimento da bexiga podem causar alterações em vias neurológicas de forma crônica que podem ser determinantes para a sensibilidade da baxiga aumentada e a dificuldade de reverter e amenizar os sintomas. 

O que é a cistoscopia e qual o papel dela para o diagnóstico da cistite intersticial?A cistoscopia é um exame feito com uma câmera em que o urologista avalia a bexiga e o trato urinário. Serve para identificar tumores e outras anormalidades na bexiga como cálculos vesicais.  Nesse exame, o urologista pode fazer inclusive biópsias se houver alguma área suspeita de tumor. Pode ser realizada a depender da avaliação urológica e a necessidade de excluir outros diagnósticos.

No exame da cistoscopia e biópsia, alguns achados podem ser sugestivos de cistite intersticial:

  • Presença de úlceras de Hunner (lesões avermelhadas na mucosa vesical com fibrina recobrindo)
  • À biópsia, presença de mastócitos

Quando devo procurar um especialista?A avaliação inicial pode ser realizada por um clínico geral, mas geralmente o paciente acaba sendo encaminhado ao urologista ou uroginecologista. Esse acompanhamento deve ser feito especialmente na presença de sinais de alerta como:

  • Presença de aumento prostático (no caso de homens)
  • Sangramento urinário
  • Sensação de esvaziamento incompleto da bexiga
  • Tratamento prévio com cirurgia ou radioterapia
  • Massa uterina ou ovariana
  • Prolapso genital
  • Falha da resposta com tratamento clínico para dor pélvica

Para saber mais:

https://bit.ly/2ZxWv9S

https://bit.ly/3etEmP3

Carlos Watanabe

Dr. Carlos Watanabe atende na área de urologia e cirurgia minimamente invasiva. Atuante na área de cirurgia robótica/laparoscópica oncológica, é especializado em transplante renal, conta com ampla experiência em uro-oncologia e também atua na área de microcirurgia e tratamento de cálculos renais complexos por via minimamente invasiva.